A medicina evolui continuamente, e a cirurgia robótica é um dos maiores avanços tecnológicos das últimas décadas. Ela trouxe mais precisão, melhor visualização do campo operatório e ampliou as possibilidades da cirurgia minimamente invasiva, especialmente em procedimentos complexos.

No entanto, existe um ponto que considero fundamental: a cirurgia robótica não veio para substituir a laparoscopia ou a cirurgia aberta. Ela veio para ampliar as opções do cirurgião e beneficiar o paciente.

Infelizmente, muitas vezes a tecnologia é apresentada como se houvesse uma disputa entre diferentes técnicas. Não existe “cirurgia robótica versus laparoscopia” ou “cirurgia robótica versus cirurgia aberta”. Essa comparação é simplista e não reflete a realidade da prática médica. Cada abordagem possui vantagens, limitações e indicações específicas.

O melhor tratamento não é aquele realizado com a tecnologia mais moderna, mas aquele mais adequado para cada paciente.

A literatura científica reforça essa visão. Os principais estudos demonstram que a cirurgia robótica é segura e oferece resultados oncológicos semelhantes aos da laparoscopia quando ambas são bem indicadas e executadas por equipes experientes. Seu benefício mais consistente está na redução da necessidade de conversão para cirurgia aberta em procedimentos tecnicamente desafiadores, como alguns casos de câncer de reto, especialmente em pacientes obesos ou com anatomia pélvica complexa.

Por outro lado, algumas afirmações frequentemente divulgadas nas redes sociais não encontram respaldo consistente nas evidências científicas. Um exemplo é atribuir exclusivamente à cirurgia robótica a possibilidade de evitar uma colostomia definitiva. Na realidade, a preservação do esfíncter depende principalmente das características do tumor, do planejamento do tratamento e da experiência da equipe cirúrgica, e não apenas da plataforma utilizada.

Isso não diminui a importância da cirurgia robótica. Pelo contrário. Ela é uma ferramenta extraordinária quando empregada nos pacientes que realmente podem se beneficiar de suas vantagens.

Como cirurgião oncológico, acredito que o verdadeiro avanço da cirurgia não está em defender uma tecnologia em detrimento de outra, mas em conhecer profundamente todas elas e indicar, com responsabilidade e base científica, aquela que oferece o maior benefício para cada situação.

Na medicina, a tecnologia é um meio, nunca um fim. O protagonismo deve ser sempre do paciente, e cada decisão deve ser guiada pelo que realmente importa: oferecer o tratamento mais seguro, eficaz e individualizado.

Nos últimos meses, surgiram estudos sugerindo “redução do risco de câncer” em usuários de tirzepatida (Mounjaro). Rapidamente, isso passou a ser divulgado como se o medicamento tivesse um efeito direto na carcinogênese tumoral. Porém Essa interpretação é cientificamente frágil.

O que os dados destes estudos realmente nos mostram?

A maioria dos estudos disponíveis são:

– Observacional

– Com seguimento curto

– Com poucos eventos oncológicos

– Sem câncer como desfecho primário

Quando alguma redução de risco é observada, ela ocorre principalmente em:

– “Cânceres associados à obesidade” (mama pós-menopausa, colorretal, endométrio, fígado, pâncreas)

O elo biológico mais consistente não é a droga em si, mas: perda de peso sustentada , redução de gordura visceral , queda de resistência insulínica, diminuição da inflamação crônica sistêmica.

Ou seja:

A literatura médica já é sólida há décadas em demonstrar a relação causal entre obesidade e câncer. 

A tirzepatida entra como meio para reduzir obesidade — não como agente antineoplásico direto.

Até o momento, não existem:

– Ensaios clínicos desenhados para provar que tirzepatida reduz incidência de câncer

– Evidências robustas de efeito direto sobre células tumorais em humanos

O risco desta narrativa atual é 

Transformar um medicamento metabólico em “droga oncopreventiva”, o que pode banalizar um tema extremamente complexo criando falsas expectativas e induzindo o uso indevido de medicações com justificativa pseudocientifica.

Nao estou condenando o uso desta medicação, porque se bem indicada e em conjunto com uma abordagem multidisciplinar , nutricionista , educador físico e psicologia ela pode ser extremamente útil.

Ciência responsável não confunde associação com causalidade.  

E medicina séria não vende esperança em forma de atalho.

Um convite à escuta, à finitude e ao sentido da vida

Este blog nasceu do encontro entre a medicina e a humanidade em seu estado mais puro: a escuta de quem se aproxima do fim da vida.

Histórias de Bicicletas é uma coletânea de relatos construídos a partir de entrevistas com pacientes em fase terminal de doença oncológica. Não são histórias sobre diagnósticos, exames ou protocolos. São histórias sobre pessoas. Sobre o que permanece quando quase tudo já foi retirado. Sobre desejos simples, memórias, medos, arrependimentos, afetos e silêncios.

O nome do projeto surgiu a partir da experiência com uma paciente jovem, portadora de câncer colorretal, cuja doença evoluiu para carcinomatose peritoneal e, posteriormente, para uma condição terminal. Em um momento em que o tempo já não era mais uma promessa, mas uma realidade concreta e limitada, realizamos uma longa conversa — cerca de uma hora — sem pressa, sem roteiro rígido, sem a intenção de “resolver” nada.

Falamos sobre a vida.

Falamos sobre expectativas.

Falamos sobre a morte — com a delicadeza e a honestidade que ela exige.

Em meio a esse diálogo, ao ser questionada sobre o que mais gostaria de fazer naquele momento, sua resposta foi simples e profundamente reveladora:

“Andar de bicicleta.”

Não era um grande plano, nem um sonho grandioso. Não havia viagens longas, conquistas materiais ou metas heroicas. Havia apenas o desejo de sentir o vento no rosto, o movimento do corpo, a liberdade de um gesto cotidiano que, para a maioria das pessoas, passa despercebido.

A bicicleta tornou-se, então, um símbolo.

Símbolo daquilo que realmente importa quando o excesso da vida é retirado.

Símbolo do essencial.

Este blog não tem a pretensão de romantizar a doença ou a morte. Pelo contrário. Ele existe para lembrar que nem tudo na vida é feito apenas de momentos de alegria, e que a morte — embora muitas vezes evitada, silenciada ou temida — é uma etapa inevitável da existência humana.

Falar sobre a morte não é desistir da vida.

É, muitas vezes, a forma mais honesta de valorizá-la.

As histórias aqui reunidas convidam à reflexão sobre finitude, sentido, escolhas e presença. Elas nos ensinam que estar preparado para a morte não significa antecipá-la, mas viver com mais consciência, mais verdade e mais humanidade enquanto o tempo ainda existe.

Que estas histórias sirvam como espaço de escuta.

Como pausa.

Como lembrança de que, no final, talvez o mais importante não seja o quanto acumulamos, mas se tivemos tempo — e coragem — de pedalar na direção do que realmente importava.

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