BLOG

Histórias e Bicicletas – Prefácio

21/01/2026

Um convite à escuta, à finitude e ao sentido da vida

Este blog nasceu do encontro entre a medicina e a humanidade em seu estado mais puro: a escuta de quem se aproxima do fim da vida.

Histórias de Bicicletas é uma coletânea de relatos construídos a partir de entrevistas com pacientes em fase terminal de doença oncológica. Não são histórias sobre diagnósticos, exames ou protocolos. São histórias sobre pessoas. Sobre o que permanece quando quase tudo já foi retirado. Sobre desejos simples, memórias, medos, arrependimentos, afetos e silêncios.

O nome do projeto surgiu a partir da experiência com uma paciente jovem, portadora de câncer colorretal, cuja doença evoluiu para carcinomatose peritoneal e, posteriormente, para uma condição terminal. Em um momento em que o tempo já não era mais uma promessa, mas uma realidade concreta e limitada, realizamos uma longa conversa — cerca de uma hora — sem pressa, sem roteiro rígido, sem a intenção de “resolver” nada.

Falamos sobre a vida.

Falamos sobre expectativas.

Falamos sobre a morte — com a delicadeza e a honestidade que ela exige.

Em meio a esse diálogo, ao ser questionada sobre o que mais gostaria de fazer naquele momento, sua resposta foi simples e profundamente reveladora:

“Andar de bicicleta.”

Não era um grande plano, nem um sonho grandioso. Não havia viagens longas, conquistas materiais ou metas heroicas. Havia apenas o desejo de sentir o vento no rosto, o movimento do corpo, a liberdade de um gesto cotidiano que, para a maioria das pessoas, passa despercebido.

A bicicleta tornou-se, então, um símbolo.

Símbolo daquilo que realmente importa quando o excesso da vida é retirado.

Símbolo do essencial.

Este blog não tem a pretensão de romantizar a doença ou a morte. Pelo contrário. Ele existe para lembrar que nem tudo na vida é feito apenas de momentos de alegria, e que a morte — embora muitas vezes evitada, silenciada ou temida — é uma etapa inevitável da existência humana.

Falar sobre a morte não é desistir da vida.

É, muitas vezes, a forma mais honesta de valorizá-la.

As histórias aqui reunidas convidam à reflexão sobre finitude, sentido, escolhas e presença. Elas nos ensinam que estar preparado para a morte não significa antecipá-la, mas viver com mais consciência, mais verdade e mais humanidade enquanto o tempo ainda existe.

Que estas histórias sirvam como espaço de escuta.

Como pausa.

Como lembrança de que, no final, talvez o mais importante não seja o quanto acumulamos, mas se tivemos tempo — e coragem — de pedalar na direção do que realmente importava.

Como chegar Agendar